03/09/2026

Hubble viu um decágono nascer no polo sul de Saturno

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Saturno acaba de ganhar uma nova forma geométrica no mapa. A NASA anunciou a 2 de setembro de 2026 que imagens recentes do Hubble Space Telescope revelaram uma onda atmosférica gigante de 10 lados a envolver o polo sul do planeta. O resultado, publicado em Science Advances, marca a primeira deteção de um padrão regular deste tipo no hemisfério sul de Saturno.

A descoberta chama logo a comparação com o famoso hexágono do polo norte, observado há mais de 40 anos desde as passagens das Voyager. Mas este novo decágono não parece ser uma simples cópia com mais lados. Segundo a NASA e a ESA, a estrutura parece estar a fortalecer-se, foi confirmada em dados do Hubble desde 2023 e estende-se por várias camadas da atmosfera, não apenas por uma faixa de nuvens visível.

Duas vistas do polo sul de Saturno captadas pelo Hubble, mostrando a onda atmosférica em forma de decágono
O Hubble revelou uma onda de 10 lados no polo sul de Saturno, visível em imagens de várias frequências. Imagem: NASA, ESA, STScI, Agustín Sánchez-Lavega, Amy Simon, Michael Wong; processamento Alyssa Pagan

O caminho até ao anúncio começou fora do espaço. Agustín Sánchez-Lavega, da Universidade do País Basco, e observadores amadores ligados ao Planetary Virtual Observatory Laboratory identificaram em 2024 uma faixa subtil e ondulante em imagens terrestres de Saturno. Observações adicionais em 2025 reforçaram a suspeita. O Hubble entrou então como árbitro: sem a distorção da atmosfera terrestre e com resolução suficiente para acompanhar rotações completas do planeta, confirmou que a forma já aparecia nos dados de 2023.

O detalhe físico é o que torna a notícia mais do que uma fotografia curiosa. A onda está presa num dos jatos atmosféricos poderosos de Saturno, por volta dos 63 graus de latitude sul, e muda ligeiramente de posição aparente conforme o comprimento de onda observado. Isso sugere uma estrutura vertical, atravessando altitudes diferentes. O artigo científico descreve um fenómeno em evolução: os vértices e lados ganharam contraste ao longo dos anos, movem-se para leste de forma lenta e parecem resultar de uma instabilidade dinâmica do jato, possivelmente influenciada por um vórtice escuro próximo.

Imagem de filtro único do Hubble com o decágono assinalado no polo sul de Saturno
Num filtro único, a geometria do decágono surge de forma mais clara; o X indica uma zona sem dados captados. Imagem: NASA, ESA, STScI, Agustín Sánchez-Lavega, Amy Simon, Michael Wong; processamento Alyssa Pagan

Para quem acompanha ciência espacial, a importância está no relógio longo. A sonda Cassini orbitou Saturno entre 2004 e 2017 e não viu uma formação estável deste tipo no sul. Depois, as estações do planeta foram mudando: o polo sul voltou gradualmente a ficar melhor orientado para a Terra, e uma rotina anual do Hubble, o programa OPAL, deu aos investigadores uma sequência comparável de imagens. É precisamente essa paciência que permite distinguir uma tempestade passageira de uma arquitetura atmosférica em formação.

O que muda agora é a pergunta. Durante décadas, o hexágono do norte parecia uma anomalia quase solitária, um capricho duradouro da meteorologia de Saturno. Um decágono no sul não torna o fenómeno comum, mas enfraquece a ideia de que só havia um caso especial. Se os dois polos conseguem organizar jatos em polígonos gigantes, então os modelos de fluidos em planetas gasosos precisam explicar quando uma onda fica presa, quanto tempo sobrevive e porque certos números de lados aparecem.

A equipa quer continuar a observar Saturno com o Hubble e, se possível, com o James Webb, além de testar simulações numéricas. Ainda não se sabe se o decágono vai estabilizar durante décadas como o hexágono do norte ou desaparecer quando a estação mudar. Por enquanto, essa é a parte fascinante: não estamos só a olhar para uma forma estranha. Estamos a ver meteorologia planetária acontecer em tempo real, num mundo onde uma tempestade pode ser maior do que a Terra e uma onda pode desenhar geometria no céu.

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